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Falta de contato com a natureza pode trazer consequências graves para as crianças

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É comum associar crianças a um cenário de natureza, brincando, livres, sujas de terra, subindo em árvores. Mas é mais uma lembrança nostálgica do que uma realidade das cidades grandes.

A falta de segurança, a popularização dos smartphones e tablets, entre outros motivos, têm levado os pequenos a ficar cada vez mais tempo dentro de casa, vendo vídeos, entretendo-se com jogos eletrônicos ou brincando em playgrounds de condomínios e brinquedos de shoppings, em vez de explorar ambientes abertos e com natureza. Perdem, assim, algumas oportunidades que permitem o desenvolvimento pleno, e que telas e ambientes artificiais não substituem.

A questão é tão grave que a Sociedade Brasileira de Pediatria lançou, neste ano, um manual de orientação para médicos, pais e pacientes sobre os benefícios da natureza no desenvolvimento de crianças e adolescentes. “A criança precisa de múltiplos estímulos para desenvolver habilidades diversas”, diz Liubiana Arantes de Araújo, vice-presidente do departamento científico de comportamento e desenvolvimento da Sociedade Mineira de Pediatria. “Em parques, praças e ambientes ao ar livre, ela consegue acesso a vários dos elementos necessários no processo.” A pediatra explica que brincadeiras são parte essencial do desenvolvimento infantil e, nesses espaços, a criança tem estímulos visuais e auditivos, treina o equilíbrio (correndo no terreno irregular), pratica a coordenação motora grossa e fina ao explorar as folhas, pedras, gravetos, vê-se frente a desafios quando tenta subir em árvores, convive com outras crianças, realiza trabalho cardiovascular que favorece a saúde do coração no longo prazo, fortalece músculos e ossos, recebe vitamina D, entre vários outros benefícios. “Além da questão física, com os estímulos adequados, a criança desenvolve diversas habilidades que são necessárias a aprendizados mais complexos do futuro”, diz Liubiana.

Os empresários Fábio Castro e Maria Letícia Nunes, com o filho Pedro, de 10 anos: casa em Macacos é cercada por árvores e recebe a visita de micos
Se os ganhos são tão evidentes, fica fácil argumentar com os pais a importância desses momentos. O difícil é incluir “tempo ao ar livre” diariamente, por pelo menos uma hora, na rotina – como é o recomendado.
A professora e educadora parental Ângela Corrêa faz questão de passear com os filhos Lucas, de 5 anos, e Catarina, de 2, em parques e praças. Ao menos duas vezes por semana, pela manhã, ela faz programas ao ar livre perto de casa com os pequenos.
No fim de semana, tenta sempre tirar um tempo para ir a espaços mais distantes, como Serra do Curral e Parque das Mangabeiras. “Deixo os meninos explorarem, ficarem descalços, colocarem a mão na terra.
Lucas traz para casa folhas, gravetos e pedras que pega pelo caminho, e Catarina está aprendendo com ele”, diz. O gosto pela natureza e pela exploração virou até tema da festa de aniversário de Lucas, que comemorou com 10 coleguinhas no Horto Florestal, com direito a caminhada na trilha e kit explorador (com mochila, bloquinho, lupa, lanterna) para os convidados. “Muitos moram na região e não conheciam o lugar”, conta Ângela.
A empresária e professora de ioga Simone Las Casas também faz questão de que seu filho Yuri, de 1 ano e 1 mês, sinta-se à vontade com a natureza. “Eu preciso do contato com a natureza para me re-equilibrar, então, desde que ele tinha dois meses, vai comigo para o sítio, em Rio Acima”, conta. Primeiro, ele ficava no moisés com mosquiteiro, apenas deitadinho. Depois, foi de carrinho para algumas caminhadas curtas em parques e, desde os oito meses, vai na mochila-canguru para caminhadas mais longas. “Fomos para a Lapinha da Serra e fizemos todas as trilhas, de duas, até três horas, com ele”, explica.
Quanto aos efeitos da natureza no filho, ela conta que percebe Yuri atento e distraído com os sons e estímulos visuais (sem que sejam “superestímulos”, como na cidade ou até nas telas), e ao mesmo tempo, calmo, relaxado, sendo que até cochila melhor.
A professara Ângela Corrêa, com o marido, Ítalo Santiago, e os filhos, Lucas e Catarina, no Horto Florestal: festa no parque
Como colocar a natureza na rotina das crianças
  • Se possível, inclua idas a praças e parques no dia a dia
  • Priorize passeios ao ar livre no fim de semana e férias em áreas naturais
  • Monte um kit para levar nesses roteiros: papelão para descer barrancos, comidinhas para piquenique, bola ou frisbee, lupas para investigar pequenos animais e plantas
  • Faça alguns trajetos do dia a pé. Todo passeio conta e pode ser fonte de curiosidade e exploração
  • Vá (a pé) ao sacolão, mercado, padaria, e aproveite para apresentar alimentos saudáveis para os filhos
  • Tenha pets e permita que a criança cultive plantas
  • Encoraje seus filhos a interagir com o ambiente natural em todas as condições climáticas, inclusive chuva (vestidos de forma apropriada)
  • Conte experiências de sua própria infância, compartilhe brincadeiras de sua época, brinque junto
  • Dê preferência a escolas que promovam atividades e projetos ao ar livre e ambientalmente responsáveis
Benefícios de experiências ao ar livre para as crianças
  • Melhora o controle de doenças crônicas como diabetes, asma, obesidade
  • Diminui o risco de dependência ao álcool e a outras drogas
  • Favorece o desenvolvimento neuropsicomotor
  • Reduz problemas de comportamento
  • Proporciona bem-estar mental
  • Equilibra os níveis de vitamina D
  • Diminui o número de visitas ao médico
  • Fomenta a criatividade, a iniciativa, a autoconfiança, a capacidade de escolha, de tomar decisões e resolver problemas
Consequências da ausência de contato das crianças com a natureza
  • Obesidade
  • Sedentarismo
  • Hiperatividade
  • Baixa motricidade
  • Falta de equilíbrio, agilidade e habilidade física
  • Miopia
  • Aumento de equivalentes depressivos, ansiedade e transtornos de sono