
O trabalho de parto da economista carioca Gabriela Laplane na primeira gravidez, em 2012, durou exatamente 20 horas. João veio ao mundo por vias normais, mas a intensidade das dores a fez pedir por uma anestesia aos 45 minutos do segundo tempo, frustrando os planos de um processo sem intervenções.
Ao engravidar de Nina, em 2015, Gabriela começou a pesquisar formas de ter uma hora H menos dolorida e demorada. Chegou, então, ao Hypnobirthing , um método que leva técnicas de concentração da autohipnose para o momento de dar à luz.
Sem necessidade de um hipnotizador, a mulher aprende quais ações ou partes do corpo, quando acionadas, a levam a um profundo relaxamento. Ela consegue também criar imagens mentais de positividade que vão ajudá-la a se concentrar totalmente no que está para acontecer. Parece simples? Tente organizar tudo isso na mente na hora das contrações. Gabriela garante que só conseguiu depois de aulas e treinos, e Nina nasceu em pouco mais de duas horas.
— A hipnose é muito mais simples do que as pessoas pensam. É uma estratégia de atenção da mente, um estado tão focado em um tema, que você começa a viver intensamente uma situação e seu corpo reage somente a ela — explica a doula paulistana Lucia Desideri, que foi mãe pela primeira vez há um mês.
A técnica, trazida para o Brasil por Lucia em 2013, foi roteirizada em forma de livros e curso nos anos 1990 pela americana Marie Mongan. A imprensa internacional garante que Meghan Markle vai recorrer aos ensinamentos da conterrânea no nascimento do bebê real, esperado neste mês. Kate Middleton, dizem, também usou nas três gestações.
— A mulher tem respostas neurológica, fisiológica e emocional inata aos estímulos do nascimento, sem precisar de intervenções. Essa é a premissa — diz Marie, por e-mail.
As ideias de Marie não são as únicas que colocam a autohipnose como ajudante para um nascimento menos doloroso para a mãe. O Gentlebirthing , por exemplo, é um outro método com esse objetivo e que também não tem nada a ver com a imagem da hipnose explorada em programas de auditório sensacionalistas do século passado — ou seja, a mulher não vai perder a consciência e sair imitando uma galinha na hora do parto.
— As pessoas associam a hipnose ao transe, mas funciona como uma meditação guiada. Não usamos nosso poder hipnótico para baixar a frequência cerebral da pessoa a ponto de ela entrar no inconsciente — explica a doula Marianna Muradas, representante do Gentlebirthing no Brasil.
Os programas do Hypnobirthing e do Gentlebirthing consistem em aulas durante a gestação e treinos em casa. Lucia e Marianna dão cursos presenciais (em São Paulo), mas também capacitam mulheres pelo país para ministrá-los. Os preços dos workshops, que têm, em média, cinco encontros, vão de R$ 600 a R$ 1.300. Quem quiser também pode marcar aulas por Skype, ou, no caso de interesse pelo Gentlebirting , se guiar apenas com a ajuda de um aplicativo.
O obstetra e professor da Unifesp, Jorge Kuhn, vê com bons olhos todas as técnicas preparatórias para um trabalho de parto menos temido.
— Não tenho dúvida de que esses e outros métodos, assim como encontros de gestantes, são ferramentas bastante úteis. A mulher tem que entender que a dor do trabalho de parto é um grande fantasma, principalmente quando ela nunca passou pelo processo — diz Jorge.
A preocupação com a dor é o tema central das mães de primeira viagem, e as hipnoterapeutas tratam logo de esclarecer um mito acerca desse métodos: eles não são garantia de que a mulher vai parir dando risadas.













