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Crônica: O que virá depois da crise?

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O QUE VIRÁ?
Solidão! Ah, que tédio! Recolhimento. Ah, que desafio.
Ficar em quarentena é para mexer com todos os entos: pensamentos, sentimentos, discernimentos,
desdobramentos, acontecimentos. Um recolhimento forçado. Etc.
Que sinal estamos recebendo para que fiquemos mais quietos? Observar o nosso interior? O
comportamento do outro? Modificar a convivência em tempos de união, quando unir-se é um problema?
Dá-lhe álcool gel na limpeza do corpo. Mas, e a alma?
Arrumar a casa-moradia e faxinar a casa-coração. O uso do repouso é também para se movimentar.
Limpar gavetas, trocar os móveis de lugar, espanar os livros e lê-los, aprender como trabalhar em home
office, manter-se produtivo. Dar sentido àquela velha desculpa do “não tenho tempo”.
A imaginação ajudará. O ócio faz isso conosco. Deixe que ele aconteça. Quanto mais horas temos, mais
poderemos nos reinventar. Nada de fazer hora. Pode até não fazer nada. Afinal, se o corpo pede
estagnação, descanse também. Qualquer ação gerará reação.
E o quintal de folhas? As plantas sem adubo? As caixas escondidas no maleiro? O que está parado,
esperando atenção?
As roupas do inverno de 1980 que podem ser usadas nesta nova estação? Dá para sacudi-las no sol? Mas,
cuidado para não espirrar com o cheiro da naftalina e isso gerar confusão com os vizinhos…
Sabe aquela receita marcada em tantos livros parados na prateleira? Receita da avó, da obra da Dona
Benta, copiada do programa da Ana Maria Braga, das dicas do Masterchef… Vamos usar o gás do fogão
para experimentar os sabores sonhados?
E a promessa de conexão com o amigo esquecido? A lista de filmes favoritados nas plataformas de
streaming? Que tal telefonar para os tios que moram sozinhos, para dar um alento? Durma se puder.
Relaxe. Medite.
Olhando pela janela, tenho ouvido o silêncio. Em plena quarta, no horário do almoço, senti que era tarde
de domingo. Nem os pássaros assobiavam. O papagaio da vizinha não gritava: ôôôô vóóóóóóó… A cadela
Bombom estava quieta. Seus donos estariam em casa, pensei. Ela só late quando está só.
Ouvir o silêncio é interessante. Coloca-me em um estado alterado. Parece que fico mais atento a ruídos
distantes. Sinto o sussurro do vento, o talher que cai no apartamento de cima, a risada da vizinha que
nunca aparece na varanda, o namoro das aventuras vespertinas.
Ouço meu coração. O pulsar das ideias e as emoções afloradas por causa da solitude. Propositalmente,
fomos chamados a esse despertar. Ainda estou buscando explicações, acolhendo com afeto aquilo que
virá. E me pergunto, diariamente: quem será você depois que essa crise acabar?
Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
www.blogdojuliano.com.br
E-mail: [email protected] / Instagram: @julianoazevedo