A situação carcerária em Minas Gerais foi objeto um diagnóstico da Comissão de Assuntos Carcerários da OAB no fim do ano passado. Os levantamentos deram origem a um documento de mais de 124 páginas, nas quais o grupo externa preocupação com a situação prisional no estado. Porém, para Piló, apesar do nível de alerta, as unidades mineiras são diferentes das do Norte e Nordeste do país. “Aqui, temos a presença do Estado no interior das prisões. Temos presença constante dos agentes penitenciários. Em outros estados, os agentes ficam fora das muralhas, e são os presos que se organizam. Nessas unidades, perdeu-se completamente o controle”, avaliou. Mesmo assim, o advogado faz um alerta. “Em Minas, já tivemos a Ciranda da Morte, por causa da superlotação. Atualmente, não temos o panorama de perda de controle nas unidades prisionais mineiras, mas estamos caminhando para isso”, completou.
Déficit
A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), por meio de nota, informou que a superlotação prisional é uma realidade nacional e não específica de Minas. A pasta estimou a população carcerária em Minas em cerca de 70 mil detentos, e a quantidade de vagas, de aproximadamente 40 mil. Uma grande parcela dos 197 presídios não pode mais receber detentos. “Em Minas Gerais, 88 unidades prisionais estão sob interdição, seja parcial ou total. O Complexo Penitenciário Nelson Hungria, em Contagem, está sob interdição parcial, com o teto de lotação limitado pela Justiça. Por razões de segurança, a lotação de unidades específicas não é divulgada”, comentou a pasta.
“É importante destacar que a atual gestão herdou o sistema prisional carente de investimentos no âmbito de pessoal e de infraestrutura, com população carcerária bem acima da capacidade das unidades prisionais administradas pela pasta”, prossegue o texto. Ainda segundo a nota, na última gestão foram criadas para todo o sistema prisional apenas 210 vagas. “A Sejusp, contudo, está debruçada sobre todas as questões sensíveis ao sistema prisional e trabalha para concretizar a abertura de vagas e para viabilizar recursos que contemplem o investimento em tecnologia e reestruturação física das suas unidades prisionais.” A secretaria informa que a expectativa é de que até março do ano que vem sejam criadas 1.100 novas vagas, por meio de ampliações de unidades.
Os infernos de BH
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A referência à Ciranda da Morte lembra um episódio que manchou de sangue a história do sistema prisional mineiro: em 1985, o Departamento de Investigações (DI) tornara-se conhecido como “Inferno da Lagoinha” e a Delegacia de Furtos e Roubos, como “Inferno da Floresta”, em uma relação com os bairros de Belo Horizonte onde ficavam. Superlotadas, as unidades passaram a sediar um macabro sorteio feito pelos presos, no qual eram escolhidos os que seriam executados para aliviar o cenário de celas extremamente cheias e carceragens transformadas em verdadeiras masmorras. Em apenas três meses foram nada menos que 15 assassinatos, que tiraram vidas e ergueram reputações criminosas, como a do Anjo da Morte: Severino Ferreira Lima, detido depois de uma simples briga na zona boêmia de BH, se transformaria no principal executor do movimento. Depois da intervenção de deputados e promotores e muita pressão, os dois “infernos” da capital foram fechados, pondo fim a meio século de operação (1958-2008). Os relatos das tragédias e a apuração sobre suas causas levariam o Estado de Minas a conquistar o Prêmio Esso Regional de reportagem daquele ano.