
Com o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), no dia 25 de janeiro deste ano, a cidade passou a sofrer uma grande exposição ao lixo e com o estoque inadequado de água, contribuindo para a proliferação do mosquito Aedes aegypt. O inseto é responsável pela transmissão de doenças como o vírus da Zika, chikungunya, febre amarela e dengue – que não existia no município antes da tragédia, segundo a Fundação Osvaldo Cruz (FIOCRUZ).
Desde o rompimento da barragem, que deixou 246 mortos e 24 desaparecidos, a cidade já registrou 437 possíveis casos da doença.
Desenvolvido pela FIOCRUZ, a pesquisa “Desastre da Vale S.A. em Brumadinho: impactos sobre a saúde e desafios para a gestão de riscos” indica que, como o Rio Paraopeba era a principal fonte de água da região e ficou cheio de lama, as pessoas tiveram acesso reduzido à água potável. Dessa maneira, alguns moradores passaram a armazenar água em suas casas de maneira incorreta. Além disso, a quantidade de lixo transportado pela lama e que foi descartado incorretamente após o acidente contribuiu para a multiplicação de exemplares do Aedes aegypt.
O município não notificou nenhum caso de chikungunya ou Zika vírus até o momento, mas a FIOCRUZ alerta que pode haver surto de febre amarela e esquistossomose – enfermidade também conhecida como barriga d’água e transmitida pelo parasita Schistosoma mansoni.
Uma pesquisa do Centro de Estudos do Sistema Nervoso Autônomo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília sugere ainda que a população de Brumadinho pode desenvolver doenças cardiovasculares por causa da exposição a metais pesados liberados após o rompimento da barragem. De acordo com pesquisa realizada pela Fundação SOS Mata Atlântica em março, dos 22 pontos analisados ao longo do Rio Paraopeba, 10 apresentaram resultados classificados como ruim e 12 como péssimo.
Sem condições de consumo e de vida aquática, foram encontrados também metais pesados na água, como o cobre, cromo e o manganês.
Perigo da dengue
Levantamento do Boletim Epidemiológico de Monitoramento dos casos de Dengue, Chikungunya e Zika Vírus, do Ministério da Saúde, afirma que foram registrados mais de 370 mil casos prováveis de dengue em Minas Gerais só em 2019. Com isso, o estado está em situação de alerta.
Em Brumadinho, o bairro do Progresso é o que apresenta maior índice da doença, com cerca de 90% dos casos desde o rompimento da barragem.
No último sábado (1º de junho), a Cruz Vermelha Brasileira e a marca de inseticidas SBP se uniram para combater o problema, entregando mais de 900 kits com inseticidas, repelentes e cards informativos para os moradores da área. “Temos uma ação educativa que gera impacto positivo na comunidade. Nosso trabalho muda a realidade”, afirma Júlio Cals, presidente nacional da Cruz Vermelha. “Nós temos neutralidade e independência para atuar, mostrando a realidade que o governo mascara.”

Também foi realizado um mutirão de educação e saúde para a população local: o cadastramento de famílias que serão ajudadas, limpeza de possíveis focos, doação de produtos da SBP e ações informativas de prevenção e combate, como um teatro infantil sobre os perigos do mosquito. “É uma luta combater a transmissão de doenças”, diz Mariana Chacon, gerente da marca SBP. “Estamos vivendo uma crise de saúde pública no Brasil e queremos salvar vidas.
Trabalhamos com as crianças para criar uma nova geração que poderá lidar com o problema no futuro.”
Combate ao inseto
A iniciativa faz parte do projeto “Juntos Contra o Mosquito”, idealizado pela SBP e pela Cruz Vermelha, no qual os voluntários da entidade e representantes da marca viajam até cidades brasileiras que apresentam grandes riscos e incidência de arboviroses. Entre maio e junho deste ano, sete locais estão sendo contemplados: Brumadinho e Rio Doce (MG); Canindé e Itatira (CE); São Vicente (SP); Cuiabá (MT) e Uarí (PR).
“Os critérios para a escolha dos municípios foram o número de registros de doenças transmitidas pelo mosquito e que fosse um local onde a Cruz Vermelha tivesse uma estrutura básica para atender a população”, explica Chacon.
Além da entrega de kits com os produtos, há eventos de conscientização sobre os perigos que o Aedes aegypti pode trazer. O material educativo do programa foi desenvolvido em parceria com a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, no Reino Unido.
Curte o conteúdo da GALILEU? Tem mais de onde ele veio: baixe o app Globo Mais para ler reportagens exclusivas e ficar por dentro de todas as publicações da Editora Globo. Você também pode assinar a revista, a partir de R$ 4,90, e ter acesso às nossas edições.














